19 de mai. de 2014
Sobre as Convenções
Eu creio na beleza, sempre cri.
Mesmo sabendo que a beleza é apenas mais uma convenção, como quase todas as coisas. Como Deus. Como a morte, até, vai saber.
Por ser pessoal e abstrata - além de convencional - a “minha” beleza está constrita na frágil e limitadíssima compreensão que tenho das coisas. É difícil achar bonito o que não se entende. Não há código para decifrar beleza que se esconda pela ignorância de quem (não) a vê.
Por isso mesmo continuo crendo na beleza, como se fosse Deus, enquanto tento entender um pouco mais das coisas para ir afrouxando as amarras que a ela imponho.
Tenho a música por ofício. E paixão. Fui criando, nessa dialética confusa que travo com a música, minhas próprias convicções a respeito dela própria e de mim. E, como de costume, só sobra a beleza. Uma beleza que, como fui percebendo, é supra genérica, transgeracional, plurirrítmica e mais quantos neologismos (ou não) sejam necessários para demonstrar que: embora limitada, ela é maior do que as mesquinhas prateleiras preconceituosas da minha cabeça (de)formada sistematicamente por muitas outras convenções.
É por isso que choro quando vejo Dori Caymmi cantando “apenas” com seu violão e me arrepiei quando ouvi pela primeira vez Karina Buhr cuspir verdades ruidorrágicas na minha cara. Assumi meu compromisso com a multifacetada beleza, convenção tão minha, não com as siglas, os rótulos e as nomenclaturas criados por outros, balizamentos arbitrários e não menos convencionais.
E beleza não dá bolor.
27 de set. de 2013
Sobre um Gosto Amargo
3 de ago. de 2013
Sobre o Império da Guanabara
3 de jul. de 2013
Sobre a Sociossismologia Empírica Aplicada
3 de jun. de 2013
Sobre o Epitáfio de um Arquibaldo
Em 1994 o Brasil ainda reaprendia a engatinhar sob a luz da democracia. No dia 1º de março, exatamente trinta anos depois do golpe que prendera e torturara a república, mais um plano mirabolante para conter a inflação era implementado. Desconfiávamos, depois de tantos fracassos.
Se hoje não se admite 40% de inflação ao ano, em 1994 era 40% ao mês. O Cruzeiro Real, tão novo, já apodrecera. Seria transformado transitoriamente em URV (Unidade Real de Valor) para, por fim, em 1º de julho, dar lugar ao Real. A taxa de conversão não era simples: CR$ 2.750,00 = R$ 1,00. E tome calculadora atrás da orelha do padeiro.
Tinha eu 14 anos de idade àquela altura, e ia sozinho ao Maracanã (e ao Glorioso estádio de Caio Martins), desde os 13. Como eu nunca sabia quanto era o ingresso dos jogos lá ia eu, de ônibus - não havia metrô aos domingos -, com meu saco cheio de dinheiro.
Naquela quarta-feira de dezembro, entretanto, o Real já era real. Já sabíamos que o ônibus custava R$ 0,35. Ayrton Senna já havia morrido e causado a maior comoção já vista no país. Pouco depois, o Brasil foi tetracampeão e houve uma comoção ainda maior (com direito a um abraço de urso de Pelé em Galvão que entortaria pra sempre a armação de seus óculos).
O Botafogo, depois de uma campanha excelente, jogaria contra o Atlético-MG pelas quartas-de-final do Brasileirão. Ganháramos duas vezes deles durante o campeonato, mas um regulamento tosco, com repescagem, nos havia posto de frente novamente. O preço: exorbitantes R$ 6,00. Calculadora em punho, inflação domada, eu sabia que devia custar R$ 3,70. Mas o "efeito tetra" tinha inflacionado o futebol, pensei eu.
Fui ao jogo. Peguei um troco aqui, uma moeda lá e fui. Levei um sanduba de casa porque o valor da entrada não me permitia gastar R$ 0,50 no já clássico chugatinho-de-filé-miau. O Botafogo ganhou o jogo mas caiu pro Galo no saldo de gols - um infeliz chamado Éder tinha acabado com o jogo do Mineirão.
Ainda assim, esse jogo inauguraria um período de quase dois anos em que eu não deixei de assistir in loco a um jogo sequer do Botafogo no Rio. Fomos campeões em 1995 e eu vivi intensamente aquela campanha. Antes de sermos campeões, recuperamos nossa sede histórica de General Severiano e foi lá, na conquista do título, que tomei meu primeiro porre de uísque - com respaldo e patrocínio da minha mãe.
Quase vinte anos depois:
- O ônibus custa 3 Reais (mais de 700% de aumento, contra menos de 300% de inflação acumulada);
- O metrô custa um pouco mais do que isso e continua levando de lugar nenhum a nenhum lugar - agora também aos domingos;
- A inflação continua em pauta;
- O Rio tem um Engenhão que custou R$ 380 milhões (ou 1 trilhão de Cruzeiros Reais) e foi interditado por problemas estruturais menos de seis anos depois;
- O Maracanã consumiu três Engenhões (ou 3 trilhões de Cruzeiros Reais) em sua descaracterização. Em seguida teve seu lucro privatizado. Ainda assim parece não cumprir as exigências do COI e, provavelmente, vai passar por novas reformas antes das Olimpíadas;
- O prefeito acredita fazer parte do Clube da Luta;
- Minha irmã pagou R$ 170 (ou 467 mil Cruzeiros Reais) pela meia entrada de um jogo amistoso no Maracanã;
- O chugatinho foi proibido para favorecer os cartelistas do interior do estádio;
- E seis reais não compram nem água no "novo Maracanã".
Eu, que fui centenas de vezes ao Maracanã, fui expulso do meu habitat. Como tenho sido expulso da minha cidade, sistematicamente.
Se estivesse lá, arquibaldo que sou, teria vaiado a seleção ao final do jogo, cumprindo meu dever cívico de torcedor-cidadão. Mas a vaia não é bem-vista no novo Maracanã e nos nossos novos protocolos de futebol elitizado - europeu no custo, jurássico no serviço.
Ah, que belo balneário. Pena ter sido arrendado e não aceitar mais índios como eu.
22 de mar. de 2013
Sobre a Teoria da Relatividade
28 de jan. de 2013
Sobre o louco
Que venha o louco. Outro louco.
Não é de mortos, mas de loucos que carecemos.
E que, enquanto vivo, ele distribua amor e gentileza.
E que, depois de morto, continue nos ensinando, o louco.
Choro enquanto escrevo porque creio que virá o louco.
E porque creio que se há Deus ele é a vida da flor que nasce nos cacos do espelho.
Não há poesia que substitua a clareza prática das responsabilidades humanas. E a perplexidade não se cura, mesmo com toda a poesia que houver no mundo.
28 de out. de 2012
Sobre Heróis
Meu avô foi um meio de transporte. Rápido, seguro, estável. Me alfabetizou sozinho e bem cedinho, imortal que era. Não me levava a um lugar, preferia mostrar o caminho dos sonhos. Debruçados sobre Barsas viajávamos para onde queríamos de quantos mundos quiséssemos. E era de lá que víamos tudo, ao vivo e em cores: preto e branco.
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O grisalho com Garrincha, Amarildo e cia. |
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Com Didi, Quarentinha, Nilton Santos e cia. |
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À beira do campo, com Saldanha e a comissão técnica. |
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O herói. |
12 de set. de 2012
Sobre o desfile cívico
20 de ago. de 2012
Sobre a cópia
5 de abr. de 2012
Sobre o Nada
Às vezes tenho a impressão de que estão falando grego na televisão. Convém dizer que, em geral, de fato estão. Mas não me refiro ao idioma-ferramenta de que faz uso o mundo inteiro e sim à expressão idiomática que sugere a ininteligibilidade de uma mensagem. Lima Barreto até tentou, mas enquanto o javanês não serve a tal propósito, às vezes tenho a impressão de que estão falando grego na televisão.
Pois bem, a comentarista, bem brasileira, falava em alto e bom grego que - repare a ironia - devíamos comemorar por ter a Grécia escapado de uma debandada maciça dos especuladores internacionais ao aprovar um pacote ultrarreacionário de austeridade monetária. Pela tese, o arrocho evitou o calote, que evitou a exclusão do país da zona do euro, que evitou uma recessão ainda maior na UE que se alastraria mundo afora tornando ainda mais fedorenta a já apodrecida economia mundial (na prática o calote foi apenas substituído por uma moratória consentida, mais comportada e elegante, mas não conte pra ninguém).
A tese, por si só, tem um alto nível de greguicidade já que ninguém sabe ao certo como se comportam essas gigantescas e nebulosas instituições do mundinho das finanças. Mas o que me chamou a atenção foi a notícia por trás da tese: um aposentado grego, falido e mal pago depois do anunciado aperto, decidiu se matar, deixando claro em um bilhete que o faria por não admitir catar comida no lixo.
Ou seja, a despeito do suicídio do aposentado, temos que comemorar. Comemorar porque o governo grego sentou o sarrafo no seu próprio povo duas vezes, ao aprovar o tal programa de austeridade e ao reprimir violentamente as manifestações contrárias a ele, aplacando assim a voracidade dos credores da Grécia e adiando um pouco a inevitável bancarrota do país. Ora, temos ou não temos o que comemorar?
Ignora a comentarista, e parecemos ignorar todos que o credor não tem rosto. O credor não tem nome. É tudo uma abstração, o dinheiro, o empréstimo, o calote. Até a Grécia é uma abstração. E, afinal, no frigir dos ovos, não seríamos apenas um grupo de pessoas produzindo, deliberando e decidindo para si, desde o início? Devemos a quem e por que razão devemos? Não sabemos. O aposentado tinha rosto. E nome.
A ironia brutal é ser a própria Grécia o símbolo cristalino da caricatura que se tornou a Democracia, advento seu. O "governo do povo", a imposição da vontade da maioria, o próprio conceito de cidadania, a Democracia, enfim, veio sendo modificada, casuística e deliberadamente, até nos tornarmos isso. Essa criatura disforme, passiva, conformada, convencional, que comemora suicídios seguidos de sinceridade em nome da saúde do nada.
2 de abr. de 2011
Sobre Saltos e Sobressaltos
Eu não sabia quem era Cibele Dorsa. Continuo sem saber quem foi Gustavo Scarpa. Até o tão falado Doda eu sei vagamente quem é.
Mas de uma coisa eu tenho certeza:
É constrangedor como se constroem sub-celebridades aos borbotões, calcadas apenas na sensualidade frágil e, às vezes, – como nesse caso – numa suposta semelhança física com alguém, de fato, famoso;
Independentemente das razões que levaram a isso, é inconcebível que haja mães privadas de ter contato com seus filhos, por mais desequilibradas que sejam as mães e por mais poderosos que sejam os tutores;
Não há nada que simbolize mais a loucura das pessoas pela notoriedade, ainda que a troco de nada, do que uma suicida que manda um teaser do suicídio pelo twitter e uma carta de despedida para uma revista de celebridades;
Mas eu continuo tendo uma única certeza e não é nenhuma das afirmações acima.
As afirmações acima são elucubrações minhas, apenas minhas, que de tão minhas seriam um tremendo atestado de pernosticismo se eu as considerasse certezas.
Tampouco é minha única certeza o fato de que, a exemplo de um outro caso já deliberado neste espaço confuso de devaneios vãos, esse caso resvala muito sutilmente no meu escopo de interesses, não sendo, por si só, capaz de me motivar a escrever alguma coisa a seu respeito.
Minha certeza solitária é que o único absurdo verdadeiro de todo este caso é ter havido censura à revista Caras. Não tenho o menor interesse por nenhum dos personagens desse pseudoescândalo, tenho ainda menos vontade de ler a carta de suicídio, mas me dá náuseas saber que algum juiz consentiu que se proibisse uma revista – seja ela qual fosse – de publicar um nome – seja ele qual for.
Um palpite à revista Caras: já que, por ordem judicial, vocês estão impedidos de publicar o nome do Doda, aquele que eu sei vagamente quem é mas sei que é casado com a Athina Onassis – ironicamente herdeira de uma das maiores fortunas do mundo –, publiquem na próxima edição, na capa, em letras garrafais, o nome do juiz que sentenciou tal absurdo, para que possamos todos cobrar dele uma atitude condizente com um estado democrático.
29 de mar. de 2011
Sobre o Bolsonaro
Se você, assim como eu, não quer um boçal da qualidade do Bolsonaro te representando, mande um e-mail para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara (cdh@camara.gov.br) e deixe isso claro.
Nunca percamos de vista que somos nós a fazer com que se mudem as leis, e só com uma pressão legítima, popular e coletiva, vamos conseguir que se criminalize qualquer tipo de intolerância.
Redija sua própria carta! A minha foi assim:
"Me chamo João, não sou negro, não sou homossexual, mas me sinto profundamente ofendido em saber que um dos meus representantes na câmara é uma pessoa anacrônica e fascista como Jair Bolsonaro.
Peço à Comissão que dê início imediatamente aos procedimentos de cassação do deputado, indigno que é do cargo que ocupa. Não é tolerável, à essa altura, que haja políticos que não compartilhem e respeitem um dos patrimônios fundamentais da sociedade brasileira: a diversidade.
Atenciosamente,
João Cavalcanti."
18 de mar. de 2011
Sobre o Brazil
Há palavras que carregam consigo o fardo de significarem o que nem sempre pretendem significar. Palavras que são julgadas pelo que parecem ser fora de contexto, talvez por serem mais comuns em uma determinada circunstância do que em outra, talvez por estarem historicamente ligadas a fatos que, de tão marcantes, sobrepujam a relatividade necessária a análise das conjunturas momentâneas.
“Repressão”, por exemplo, soa aos ouvidos de qualquer pessoa sensata como uma ação ruim. É uma palavra que se enquadra nos dois cenários descritos acima: é muito mais usada para descrever circunstâncias ruins do que boas e ainda nos remete a períodos negros da nossa história recente. Mas qualquer ser humano, mesmo aquele que prefere não transpor a superficialidade das palavras, exercita diariamente, sem moderação, a auto-repressão. A auto-repressão é o único mecanismo confiável e viável que nos permite conviver em um caldo tão heterogêneo quanto uma comunidade de distintos. É através dela – e por causa dela – que não nos matamos uns aos outros o tempo inteiro, e isso é bom. – ou não?
De mesmo modo e efeito contrário, a palavra “reforma” parece ser um pouco mais boa do que ruim. Reformar algo, quase sempre, é atualizar alguma coisa em seu tempo, pôr em uso algo que estava fora de funcionamento ou revitalizar um objeto obsoleto ou em mau estado. Apesar disso há reformas que são feitas em nome da tal “atualização” mas respondem a interesses suspeitos, há reformas que têm intenção boa mas conseqüências discutíveis e há reformas que têm conseqüências boas mas motivações embaraçosas.
As reformas políticas que acontecem no seio do mundo desenvolvido, por exemplo, são feitas em nome do bem estar comum. Salvo raras exceções, essas reformas mudam as fórmulas de arrecadação das previdências sociais de cada país, aumentando o tempo de serviço do cidadão comum enquanto governos emprestam dinheiros a bancos e grandes corporações a pretexto de “evitar crises”. É um exemplo de uma reforma com pretexto nobre e interesse escuso;
A Reforma Protestante, por sua vez, parecia, em sua época, uma iniciativa iluminada que tornaria mais acessível aos fiéis uma liturgia que se havia distanciado deles, de tão engessada que se tornara. Tinha tudo a ver com o sentido íntimo da palavra Religião (outra daquelas com julgamento superficial), ligar de maneira mais profunda o Divino e o Humano. Entretanto, entre as inúmeras doutrinas que se desdobraram desse movimento inicial, há algumas que são ainda mais reacionárias, inacessíveis e dogmáticas do que o catolicismo contra o qual protestam. É um exemplo de reforma bem intencionada com efeito duvidoso;
As reformas por que passa a cidade do Rio para a chegada do presidente americano, por outro lado, me deixam profundamente envergonhado. E o fato de os cariocas – muito influenciados por um senso comum massivamente divulgado pela mídia formal – embarcarem nesse embuste me causa ainda mais náuseas. Uma cidade da dimensão da nossa, com a importância e a relevância da nossa, mais uma vez, arria as calças para receber um figurão “do estrangeiro”. É mais uma manifestação patética de subserviência e complexo de inferioridade de uma cidade que, em seu cotidiano, não parece se preocupar com os 16 milhões de figurões que a tornam real diariamente.
Yes, we could.
9 de mar. de 2011
Sobre o Carnaval II
Alheia às avaliações suspeitas e aos sorrisos falsos que promovem mentiras e ajudam a emoldurar o carnaval entre décimos e tabelas coloridas, Dona Ivone Lara deixou a Lapa em transe ontem à noite.
Era incrível a convergência de simbolismos: a principal responsável pela emancipação da mulher num dos ambientes mais machistas que há, no dia internacional da mulher, acompanhada pelo Cordão do Boitatá, ícone do processo de reocupação das ruas pelo carnaval, na reocupada Lapa, encerrando oficialmente a festa. Aliás, desde que a Lapa foi invadida novamente por nós loucos não havia por lá, durante o carnaval, celebração tão bonita, democrática, livre.
Dona Ivone é transcendental. Todos a queríamos ali. E o melhor da história é que ela também parecia querer estar ali. Mas vê-la no palco deflagrou em mim uma usina à beira da implosão, dividido que fico entre a alegria que tal privilégio me causa e a consternação que sinto em saber que, ainda que ela não quisesse estar ali, talvez não lhe restasse tal opção.
Para além de sermos autônomos, os músicos somos criaturas que parecemos trafegar ao largo da oficialidade. Isso até tem algumas vantagens, como a “condescendência de classe”. Mas, ao fim e ao cabo, não se aplicam a nós as leis, e nós ainda não criamos as nossas.
Enquanto isso, ficamos batendo cabeça pelas parcas migalhas dos direitos formais.
Ela sim, de fato e de direito, é a personificação da revolução, do carnaval (há de subir o Império, Dona Ivone!) e da mulher.