27 de out. de 2010

Sobre mentiras

Caros, não pretendia falar de política aqui, neste enfadonho e obsoleto veículo do nada. Mas meus argumentos não cabem em 420, muito menos em 140 caracteres, portanto...

Ao contrário dos candidatos à presidência, eu não sou economista. Sou medíocre em matemática. Ainda assim fiz essa pequena pesquisa usando apenas dados oficiais (todos disponíveis na internet), depois de ver Mr. Burns dizer que:

(1) o dólar a um valor tão baixo desfavorece o exportador brasileiro;
(2) vai aumentar o salário mínimo para R$ 600,00 já no ano que vem.

A respeito do primeiro absurdo: Não foi o FH que criou a tão sonhada paridade cambial (R$ 1 = US$ 1)? Aliás, não foi ele que manteve esta mentira para se tornar o primeiro presidente reeleito da história (claro, a reeleição foi uma das manobras mais casuístas da política brasileira) às custas de um aumento sem precedentes de nossa dívida pública (e mais um favorzinho do FMI)?

Sobre o segundo absurdo, seguem os números:

FH assumiu o país com um salário mínimo de R$ 70,00 (À época havia a tão propagandeada paridade cambial, ou seja, SM de US$ 70);

Aplicando-se a inflação de 1995 até 2002, esse salário deveria ser de R$ 136,00 ao cabo de seu governo;

FH saiu do Planalto com um salário mínimo de R$ 200,00. Um aumento real (descontada a inflação do período) de 35% em oito anos (a cotação do dólar em dezembro de 2002 era de R$ 3,60, ou seja, FH assumiu o país com um SM de 70 dólares e entregou o país com um SM de... 55 dólares).

Em contrapartida...

Lula assumiu o país com um salário mínimo de R$ 200,00 (os tais 55 dólares), e assumiu também um compromisso de levá-lo a 100 dólares (ainda lembro dos risos de oposição e opinião pública);

Aplicando-se a inflação de 2003 até 2010 (arredondei a estimativa para esse ano para 5%, para cima), esse salário deveria ser de R$ 310,66 ao cabo de seu governo;

A não ser que haja uma hecatombe financeira e cambial, Lula entregará o governo com um SM de 510,00, mais ou menos o dobro de aumento real. Ah, o tal dólar baixo demais (vamos dizer que o ano feche com o dólar a R$ 1,80, ainda que esteja hoje a R$ 1,72 mais ou menos) faz com que esse salário mínimo seja de US$ 283,33.

Eu não ganho salário mínimo. Você provavelmente não ganha salário mínimo. Mas fazemos, você e eu, parte de um país com muitos problemas e que só vai poder enfrentá-los quando promover, de fato, a justiça.

Sem um entusiasmo transbordante, mas com bastante convicção: é 13.

28 de ago. de 2010

Sobre minha própria ignorância


Exatamente agora, no jornal O Globo de hoje - não o hoje de quem lê este post, mas o meu hoje quando escrevo - tem este mesmo texto. Sou o colunista convidado da semana da Revista, e aproveitei o espaço oferecido pra me expor em minha suprema ignorância e meu supremo preconceito. Ainda que tecnicamente já seja domingo... shabat shalom!


Fui alfabetizado pelo meu avô. Líamos atlas e mapas cobertos de poeira e repletos de mistério. Desde então, convivo com uma pequena alergia e com um vício: me interesso pelo mundo.

Quando fui tragado pela música, no meio de um universo de inseguranças, me seduzia a perspectiva de viajar trabalhando. De ver como eram o cheiro dos nomes, a cor das estatísticas, o som dos monumentos que eu conhecera nos livros.

Confesso que a vinda do meu filho arrefeceu o ímpeto de ir cada vez mais longe e por mais tempo, mas, ironia do destino, foi justamente o que aconteceu desde sua anunciação. Com o Casuarina conheci, nos últimos dois anos, algumas cidades do mundo. Reiterei convicções, desfiz outras tantas.

No início do ano fomos convidados pela embaixada brasileira em Israel para tocar em Tel Aviv em junho. Mais uma oportunidade de levar a música que fazemos para além de nossas próprias fronteiras e nos alimentar de novos sons, cores e cheiros.

Em 31 de maio, o exército israelense atacou um navio turco que levava ajuda humanitária à Faixa de Gaza. A abordagem covarde resultou em muitas mortes e escandalizou qualquer ser humano com um mínimo de sensibilidade. Gaza é, sim, controlada pelos radicais beligerantes do Hamas, mas há crianças por lá. E Israel impõe, contrariando a ONU, um terrível bloqueio de recursos vitais àquele lugar.

O ataque criou dois grandes argumentos para que pensássemos em cancelar a viagem: a iminência de uma nova intifada fazia com que nossas famílias temessem por nossas vidas (ainda que os números da segurança pública no Rio sejam bem piores do que os do conflito palestino); além disso, costumamos ter cuidado com as consequências políticas das escolhas que fazemos, e em casos como esse a reação ao alcance do artista é não ir.

Fomos. Porque somos profissionais. E porque éramos convidados da embaixada do nosso país. País cuja diplomacia me orgulha por optar sempre pela paz. Mantemos relações de maneira isenta e equânime com Israel e com seus inimigos políticos. Não por acaso, o Itamaraty condenou veementemente o ataque.

Fomos. Mas fomos tensos.

Em tão pouco tempo não conheci muito do lugar onde estava, mas conheci um pouco mais a mim mesmo. Acho que voltei de Israel um pouco menos ignorante. Se Tel Aviv parece ter uma maioria bem-vestida e mal informada, em contrapartida conheci pessoas brilhantes, progressistas, sionistas orgulhosos que fazem oposição ao governo e têm, inclusive, a convicção de que a única saída pra esse imbróglio secular é a consolidação do território Palestino.

Os estereótipos são muito cruéis. Logo eu, brasileiro, que não sou Tarzan e não moro em Buenos Aires, a tal capital do Brasil, cometi o erro primitivo de que, em geral, sou vítima. Há judeus de todos os tipos, pra todos os gostos, alinhados com quaisquer tendências políticas. Há judeus ateus, não-judeus, não-árabes. Há gente bonita, gente feia, gente engajada e gente alienada. Fundamentalmente, há fundamentalismo, mas há senso crítico. Nem todo israelense é Netanyahu, como nem todo palestino é Arafat como ensina a velha cartilha da velha esquerda.

O show foi descontraído, leve, delicioso para nós – e a julgar pela reação da plateia, para todos. Antes de embarcarmos de volta, tivemos um dia em Jerusalém, de onde ninguém sai ileso. Até mesmo eu, que não tenho ligação formal com nenhuma religião, fiquei impressionado com a densidade das energias que convergem pra esse lugar. Quando entrei no Santo Sepulcro pensei no meu avô, católico, que me deu acesso às letras, me emprestou o interesse pelo mundo e me educou segundo a ética cristã. Chorei por ele como Cristo, pra ele, morreu por nós. E me reaproximei dos deuses. Fomos. Queira Jeová, voltaremos a Israel. E, queira Maomé, poderemos então ir à Palestina.


Sobre razões e propósitos



Qual a razão de ser de um telefone? Qual o propósito de um rádio?

Um telefone serve pra que duas pessoas se falem à distância; um rádio tem o propósito de permitir que pessoas ouçam o que outras pessoas dizem.

Telefones e rádios param de funcionar, ou, ainda que continuem funcionando, são substituídos por outros telefones e rádios mais modernos, e, então, o propósito e a razão de ambos será acumular poeira.

Até que alguém, muitos anos depois, acha esse telefone e esse rádio que, apesar de ultrapassados, são peças que remetem a uma época e despertam a memória afetiva de quem os viu serem, respectivamente, telefone e rádio.

Serão vendidos como relíquias, mais caros do que costumavam custar quando eram telefone e rádio.

Como se pode observar, assim como telefones e rádios, quase tudo que há no mundo tem uma única razão e um único propósito de ser. Outras razões e outros propósitos são possíveis, mas, em geral, chegam para substituir as razões e propósitos que os precederam.

Digo quase tudo porque no último ano pude constatar que a razão e o propósito da vida de um pai é maior do que a razão e o propósito da vida de um homem. Sempre tive múltiplas razões e múltiplos propósitos pra viver e, desde o nascimento do meu filho, todas elas passaram a ser ele. É o único estranho e extremo caso em que uma razão-propósito é retroativa. Tudo pelo que passei nos vinte e nove anos em que estive alheio à paternidade parece ter a razão-propósito de me trazer até aqui, pai, com uma única razão-propósito de viver.

Tudo que digo, tudo que não digo, o que já escrevi neste blog e, fundamentalmente, o que não escrevi durante esse primeiro ano da vida de meu filho, têm a razão e o propósito de fazê-lo feliz.

Mas, como esse blog não quer ser vendido mais caro como relíquia... ressucitá-lo-ei.



20 de jul. de 2009

Sobre o nono ano de gestação


Filho


Quando nascer meu filho,
Seu brilho será
De um intransitório
Transe histórico, gatilho.

Empecilho? Qual o quê;
Descarrilo do avesso.

Hei de vê-lo arrancar do mamilo
Aquilo que lhe servirá de lenha e trilho.
E a assim, além de trilho e lenha,
Pra mim, será, o filho, contrassenha.

7 de jul. de 2009

Autopsicografia #9





Atrás da vida pra poder morrer,

Eu tô me despedindo pra poder voltar.

(Tom Zé & Élton Medeiros)

6 de jul. de 2009

Sobre tatuagens esferográficas


Apresento-lhes um pequeno conto de minha autoria:

Um dia, uma gestante tentou receber atendimento no maior hospital de sua cidade.

O caso era grave e exigia internação imediata.


Um médico, canudado (um viva aos ubaldianismos autorreferentes nossos de cada dia), orientou a gestante a procurar uma maternidade, fazendo-lhe, inclusive, o inestimável favor de escrever-lhe no antebraço o nome da maternidade e as linhas de ônibus que a levariam até lá.

A gestante entrou no desconfortável ônibus e, ao chegar em seu destino, constatou que seu filho havia morrido. Tremenda ironia linguística ter morrido seu filho justo no caminho entre o hospital e a maternidade, pois a maternidade - a que se constrói com sonhos, não com tijolos - o próprio caminho lhe havia arrancado, ora sendo a gestante forçada a tomar outro caminho, de volta ao hospital, uma vez que maternidade de sonhos já não mais havia e de tijolos não mais carecia.

Quando questionado sobre o caso, o prefeito da cidade respondeu, categoricamente, o que temos que fazer é... punir.

Claro, nada mais havia a fazer. Nesta cidade todos os cidadãos tinham acesso a tudo que era público. Havia fartura de litros de leites, leitos e letras, menos de lutos.

Sobretudo ali, onde a gestante
solicitara atendimento de emergência, havia abundância de vagas, obstetras, ambulâncias e maternidades. Afinal, era o maior hospital da cidade.

Logo, concluiu-se que a morte da maternidade da gestante só podia ser resultado de uma peça pregada pelo espirituoso médico a se valer do raro artigo da ignorância alheia. Pobre médico, só quis testar sua caneta nova.

Gostaram do conto? É claro que é ficcional...

Não pela "cidade-pública", inspirada em algumas que conheci um pouco mais a norte.


Mas só mesmo a literatura fantástica para imaginar uma trama como essa.

A cobra não morde uma mulher gestante
Porque respeita seu estado interessante

(
Nelson Cavaquinho & Guilherme de Brito)

28 de jun. de 2009

Sobre canudos


Há alguns dias eu sou oficialmente graduado em... nada.


Não que isso seja uma novidade, já que o diploma que me faria bacharel perante os tribunais ainda está lá, rodeado de outros tantos diplomas, abandonados como ele, em um arquivo morto de uma universidade privada.

De qualquer maneira, confesso que me causa uma ponta de decepção saber que esse diploma, se fosse útil a mim, não o seria mais à oficialidade do meu país.

Eu sou jornalista. E fiquei satisfeito com a decisão do Supremo.

Sou jornalista porque escrevo, porque faço de minhas músicas crônicas. Não seria mais ou menos jornalista por ter comigo o abandonado canudo a que tenho direito. Por isso fiquei satisfeito com a decisão do Supremo.

Entretanto, preciso despir-me por completo de qualquer hálito jackbaueriano. Os fins não justificam os meios, e essa é uma decisão que segue à risca a rara tradição da boa política do país: correta nas consequências, espúria nos argumentos e pífia no debate e na consulta pública de que se cercou.

O que mais se ouvia dos ministros que derrubaram a obrigatoriedade do canudo é que o exercício do jornalismo não exige conhecimento técnico e não oferece perigo à coletividade, ao contrário de profissões como medicina e engenharia.

Depois de ouvir tamanho desdém, lembrei-me de três casos largamente noticiados na imprensa do Brasil - pelos então bacharéis em comunicação social com habilitação em jornalismo:

1 - O caso do edifício Palace II
2 - O caso do cardiologista privado do SUS
3 - O caso Escola Base

Nos dois primeiros, meus nobres colegas eram testemunhas. No terceiro, protagonistas.

Para refrescar memórias:

Sérgio Naya, ex-deputado federal, era dono de uma dessas empreiteiras que financiam campanhas e, curiosamente, conseguem liberações para construir em áreas de proteção ambiental e afins. Construiu o edifício Palace II, superfaturando a obra que viria a ruir, matando algumas pessoas e lesando materialmente outras tantas. A empresa de Naya era legal e contava, obviamente, com engenheiros devidamente canudados;


Doutor Rimmel Gúzman era cardiologista do Serviço Único de Saúde, maior rede de saúde pública do mundo e, supostamente, motivo de orgulho para todos nós, brasileiros. No Hospital da Universidade Federal de Uberlândia, em Minas Gerais, onde trabalhava, cobrava, em média, 200 reais por consulta, ignorando o fato de o Hospital ser exclusivamente de atendimento público. Doutor Gúzman era devidamente canudado;

A Escola Base, em São Paulo, ficou famosa por ser o centro de um suposto escândalo sexual, noticiado - e condenado - largamente pela imprensa antes mesmo de um veredicto judicial. O inquérito foi arquivado por falta de provas, mas a escola foi julgada culpada por seus vizinhos que, incitados pela abordagem da imprensa ao caso, saquearam e depredaram seu prédio, além de terem agredido os réus. As reportagens foram conduzidas por jornalistas devidamente canudados.

Os veículos que julgaram publicamente a Escola Base continuam sendo lidos Brasil afora. Os repórteres que derrubaram a reputação da Escola continuam exercendo a profissão de jornalistas, enchendo linguiças sem trema e preparando obituários de véspera.

Sérgio Naya morreu algum tempo atrás em Ilhéus, onde gozava da liberdade por ter sido absolvido da acusação - comprovada por inúmeros laudos técnicos. Ele pretendia construir shoppings na cidade baiana.

Rimmel Gúzman foi afastado do cargo à época, e não se tem certeza se chegou a perder seu registro médico. Ou seja, pode estar extorquindo pacientes em outro rincão ou gerenciando uma agência lotérica aberta com os dividendos do assalto que promovia.

Posto isso, a função do jornalista tem uma responsabilidade social tão grande como a do engenheiro ou do médico. Se o prédio da Escola Base tivesse ruído não teria tanta repercussão. Se a Escola Base fosse um posto de saúde público e cobrasse consultas não teria tanta repercussão.

A queda da obrigatoriedade do diploma é um bode espiatório político-panfletário-anti-ditatorial, não fruto do intenso debate prático que a deveria ter precedido.

Agora, frente à impunidade latente e notória que há por aqui, demonstrada nos três casos supracitados, convém perguntar se não seria a hora de deliberarmos sobre a obrigatoriedade de diploma para o exercício da JUSTIÇA.

24 de jun. de 2009

Sobre origens e destinos


Fica o silêncio depois da música e depois do sermão, que importa que se louve o sermão e aplauda a música, talvez só o silêncio exista verdadeiramente.


(José Saramago)

16 de jun. de 2009

Sobre o vício da retórica


Não é que eu seja do contra;

Sou apenas mais um salmão na foz do rio do mundo.

12 de jun. de 2009

Sobre tudo menos samba


Longe de Shakespeare e perto do universo de onde não vim mas onde vivo, me impressiona a capacidade que as coisas têm de, como se fossem ímãs, cercarem-se do que não são conforme passam os anos e gira a roda.


O próprio Shakespeare, hoje, quando lido, recitado ou representado, ganha inexplicáveis ares de sofisticação, apesar de ser coloquial em forma, conceito e linguagem, à época, aquilo que escrevia.

Não é a toa que é dele a frase-conflito mais parafraseada da história da humanidade, repleta que é de simplicidade e complexidade. Pois bem, Mr. Shakespeare, faço minhas as suas, não sem uma pequena transbordação (Ubaldiana) casuísta:

To be or not to be... sambista, that is the question.

Já tive mais problemas com esse dilema - não o de fazer e viver do samba, mas o de autorreferir sambista - mas aos poucos percebi que ele é tão eterno quanto inútil.

Inútil porque falamos do samba que um dia lutara para simplesmente deixar de ser ilegal e que se tornou a maior representação cultural de um país da dimensão do nosso, mestiço como é o nosso. Esse mesmo samba hoje responde a uma casta (hare baba!) a determinar quem leva seu nome como ofício ou não. Casta essa que eu admiro muito e de cuja existência reconheço o caráter indispensável. Mas agradeço aos céus - ecumenicamente - por não pertencer a ela, muito menos ao grupo dos que merecem dela o que considero ser apenas um rótulo.

Não quero pertencer e não pertenço a esse grupo porque não sou puro o suficiente para ser de nenhum grupo. Um indivíduo é aceito num grupo não por escolher fazer parte dele, mas por escolher invariavelmente não fazer parte de nenhum outro grupo. Há indivíduos, como eu, que preferem aceitar grupos do que ser aceitos por eles.

Me conforta um pouco saber que, mesmo entre sambistas com esses maiúsculos, não há consenso sobre o próprio samba, que samba, ele próprio, entre exibir-se orgulhoso à duquesa de Kent no Itamaraty e agonizar frente às outras culturas que a fidalguia do salão lhe impõe. Claro está apenas, na minha cabeça, que o samba diz menos respeito à tradição do que à subversão, seja sendo conservador, seja sendo revolucionário.

Eu acho que o samba basta. Mas eu tenho arrepios quando vejo o samba dizer que se basta.

Por isso tudo eu não atrevo a dizer do que é feito, ainda que eu ouça delicada e atentamente, todos que se atreverem.

Afinal, é tudo uma grande invenção.

30 de abr. de 2009

Sobre o porco louco


Eu tenho um melhor amigo argentino. Pra que fique claro, mesmo com a infeliz construção da sentença, não apenas o melhor entre meus amigos argentinos mas o argentino entre meus melhores amigos.


Um dia, no auge da gripe aviária, à época temida e já caminhando a firmes passos para a incontrolabilidade (parafraseando meu xará Ubaldo, não no termo, mas no que se segue a ele: perdoem-me), meu melhor amigo argentino me ofereceu um dólar pra cada pessoa que morresse a partir de então em consequência da proto-pandemia (ops!) anunciada. Imaginei que meu melhor amigo argentino teria problemas para me pagar a pequena fortuna a que eu teria direito, conquanto não fosse, eu mesmo, uma das vítimas galináceas.

É provável que ele me deva uns poucos dólares, um montante sem expressão - a não ser que se o converta em pesos, com o perdão da infâmia - mas nunca fui cobrar a tal dívida, um pouco por preguiça de consultar os números oficiais e muito por perceber, ainda que de maneira tardia, que o desafio era simbólico.

Hoje, como eu já esperava, meu melhor amigo argentino me ligou ofrecendo um dólar para cada óbito em consequência da gripe suína, a contar a partir do 500º, digamos assim, uma margem de segurança.

Caso eu sobreviva à pandemia, de maneira nenhuma eu porco, digo, perco:

Cenário 1 - Controla-se a gripe, salva-se a humanidade, e meu melhor amigo argentino guarda seus dólares para uma nova lua-de-mel no Caribe;

Cenário 2 - Morrem milhares, milhões de pessoas, o planeta aproveita o peso (não o argentino, aquele que se mede em toneladas) que se lhe tiram das costas, e eu fico rico às custas de um pobre melhor amigo argentino.

Nesse ínterim, continuo procurando alguém que me ofereça um dólar por cada pessoa que morra em consequência da maior doença do mundo: a fome.

Segundo a ONU, 25 mil pessoas morrem de fome por dia e quase um bilhão de pessoas não come o número de calorias necessário a uma pessoa adulta para que se mantenha saudável. Um salário de respeito, 750 mil dólares mensais.

É de se questionar, posto isso tudo, porque não se comovem os jornais, as tevês, os especialistas, as populações, enfim, a parafernália, frente a circunstâncias tão desoladoras e a perdurar por tanto tempo.

Com a sabedoria exclusiva das mães, decreta minha Rainha: a fome não é contagiosa.

O jantar está servido.

20 de abr. de 2009

Autopsicografia #8





I'll send an S.O.S. to the world...
I hope that someone gets my message in a bottle.

(Sting)

Sobre o que é responsabilidade


Como se não bastasse responsabilizar o usuário pelo tráfico, o tubarão pelas pernas que abocanha e o pobre por continuar sendo pobre, ontem, saindo do Maracanã - um tanto cabisbaixo, confesso, conquanto o destino do mundo ainda esteja por se decidir - fui testemunha de uma das mais espetaculares distorções de que se tem registro.


Sou Botafogo, sempre fui, sempre serei e, por isso mesmo, meus sentimentos arquibáldicos são, digamos assim, calejados. Sofro sim, choro também, mas meu mau humor dura coisa de horas, não mais que isso. Mas essa cena, protagonizada por um pai, um filho e um policial militar (oxalá fosse um espírito santo), não me pareceu repulsiva por causa de minha condição de derrotado ou, muito menos, de aspirante a pai. Talvez de humano.

Às portas do Maracanã (traseiras, é claro, é a parte que nos cabe neste latifúndio), durante a descida do rebanho, abriu-se um clarão. Típico de saída melancólica, muito provavelmente um arrufo entre correligionários alvinegros sofrendo de cabeçaquentite aguda - não seria exatamente uma surpresa, entretanto, se a balbúrdia fosse obra da tropa inimiga avançada, não satisfeita com a vitória, sedenta por sangue.

Pra mim, nada daquilo era novo. Depois de vinte anos de assiduidade, sei os atalhos e os procedimentos. Mas, um pouco adiante, lá estavam: o filho, no recolher das pálpeberas do arregalar dos olhos, assustado; o pai, abraçando o filho muito mais na intenção de parecer proteger do que de fato proteger (até porque o perigo ia longe e já estava um tanto maior dentro do menino do que à sua volta); e o espírito-de-porco-fardado, que, em um lampejo de suprema covardia, vociferou, dedo em riste, contra o pai, acusando-o de ser... irresponsável.

É, há de ser irresponsável o pai que leva seu filho para um evento cuja censura é livre, cujo fim é o esporte com tudo de bom que a palavra traz consigo, cuja intenção é fazer com que se aproveite, em família, as suadas horas de folga do abençoado domingo nosso de cada semana.

Em contrapartida, temos, na imagem desse bucéfalo da segurança pública, o exemplo-mor da responsabilidade, inoperante que é nas questões que o deveriam interessar (uma vez que interessam a quem lhe paga o salário, grupo do qual, curiosamente, fazemos parte eu, você, o pai e o filho), a dar sermões com ares de supernanny, não se importando que suas palavras, expressões e gestos, sirvam ao despróposito de aumentar a tensão de todos a despeito do arrefecimento da confusão original.

Aproveitando o ensejo, catuco novamente uma feridinha institucional: pra que e a quem serve uma polícia MILITAR?

16 de abr. de 2009

Autopsicografia #7





E agora eu era um louco a perguntar:

'O que é que a vida vai fazer de mim?'

(Chico Buarque & Sivuca)

15 de abr. de 2009

Sobre os pecuaristas de trem


Pessoas são tratadas como gado e ninguém se pergunta, afinal, se o próprio gado é tratado assim. Se o é, com o perdão da anti-redundância irônica, só mesmo as pessoas pra cometerem tamanha desumanidade: As pessoas agredidas feito gado podem fazer exame de corpo de delito, o gado agredido feito pessoas não.


Poucas coisas são tão difíceis de se registrar em vídeo como as manifestações corriqueiras da tal, bem observada, síndrome do pequeno poder. Pois bem, nesta manhã nos fizemos testemunhas da intestemunhável realidade diária de quem é leite desnatado - autorreferência não é crime.

Quem presta serviço a quem? Os sindrômicos, tão desnatados quanto os demais, se divertem com seu próprio sadismo injustificável enquanto os porta-estandartes se omitem e demitem, tão somente. A que preço se põe à venda uma dignidade coletiva?

Na cidade-maravilha-mutante coloca-se ar-condicionado e aumenta-se o grau de truculência em proporcionalidade inversa ao da temperatura.

Sabe o pior? É capaz de o pastor-chefe ser vegetariano.

Madureira chorou
Madureira chorou de dor
Quando a voz do destino
Obedecendo ao divino
A sua estrela chamou
Gente modesta
Gente boa do subúrbio
Que só comete distúrbio
Se alguém os menosprezar
Aquela gente que mora na zona norte
Até hoje chora a morte da estrela do lugar
(Só eu não posso chorar)

(Júlio Monteiro & Carvalhinho)

10 de abr. de 2009

Sobre o desenvolvimento humano


Por que se levar tão a sério? Qual a razão de tamanho medo do ridículo?


É tentador imaginar que a ridiculez é transitória. Quando olhamos pro passado e nos enxergamos patéticos, quase nunca temos a perspicácia de que ainda nos reconheceremos patéticos quando nos observarmos de um ponto de vista futuro.

Os otimistas dirão que essa é a razão da obsessão por crescer, melhorar, improve. Eu direi: não há como escapar, somos todos ridículos. Sempre seremos absolutamente ridículos.

Alexandre, o Grande, é ridículo tanto em Hollywood quanto numa aula de história do ensino médio.

Miró com seus rabiscos, Hitler com seu bigode, Getúlio com seu metro-e-meio, Napoleão com seu cavalo branco, Marley com seus piolhos, todos apaixonadamente ridículos.

E assim seremos, sucessivamente, um pouco menos que ontem, um pouco mais que amanhã, até que, enfim, alcancemos a magnitude da espécie, o derradeiro desapego da velhice, quando, afinal, nada disso mais faz sentido e, em não sendo ridículos tanto quanto não-ridículos, apenas somos.

9 de abr. de 2009

Sobre o mal


Sempre achei que as pessoas se dividissem em dois grandes grupos: os pernósticos e os dissimulados (afora os loucos, é claro).


Minhas obrservações recentes me levaram à constatação de um terceiro grupo, discreto e com assustador coeficiente de crescimento, o grupo dos covardes.


A patologia da covardia acomete em progressão geométrica policiais, políticos, banqueiros e até motoristas de ônibus. Às vezes se manifesta na forma convulsiva psicopática, flagrante nos casos Fritzl, von Richthofen, Nardoni e em tantos outros, mas é nas pequenas demonstrações diárias - em muitos casos confundidas com a já bem observada síndrome do pequeno poder - que explicita, através de seu receptáculo humano, a verdadeira face da crueldade. Tem especial predileção pelos chamados "países em desenvolvimento".

A covardia é o mal. É o mal maniqueísta, o mal cristão, o mal que a oração não redime.

Prazer, me chamo João e sou pernóstico, dissimulado E LOUCO.

7 de abr. de 2009

Autopsicografia #6





Gonna keep on tryin'...

'Till I reach the highest ground.


(Stevie Wonder)

Sobre o arrepio


Ontem, pela primeira vez, escutei o coração do meu filho.


Por mais que me tentem convencer de que eu já o ouvira, percebo agora que não há estetoscópio, doppler, ou qualquer outra parafernália tecnológica capaz de reproduzir o coração do filho que se ouve com o coração do ouvido - ou com o ouvido do coração.

Quando ouvi de minha mulher "ah, isso eu não consigo", pensei, cá com meus botões, que apesar da frustração de não engravidar, não amamentar e, sobretudo, não ver de si nascer o filho, o pai tem o privilégio único e mágico de ouvir com o coração do ouvido o apressado coração daquele precioso pedaço seu.

Foi o maior arrepio até aqui.

Acho que arrepio maior que esse, só quando eu estiver lá, vendo minha Rainha dar a luz (assim mesmo, sem crase).

3 de abr. de 2009

Sobre ser chique


No mundo de onde venho aprendi que de nada me servem os dividendos da conquista se, do alto do Panteão dos vitoriosos, eu não puder exibir orgulhoso a dignidade do processo.


Alguns chamam a isso Ética, outros não.


O fato é que eu não estou pronto pra ver o mundo, melancolicamente, se desapegar do livre mercado, enojado que está do frenesi do consumo. Sou um romântico, e no anacronismo da minha cabeça acreditava nas Revoluções.

Finanças em concordata e há um ex-camarada disposto a emprestar dinheiro à Daslu do mercado financeiro. Há de se ter encurtado sua memória, posto que passara uma encarnação bradando aos ventos o quanto de vida lhe fora sonegado pelo próprio credor de outrora, hoje a emprestar fiado.

Companheiro, aproveite o espetáculo e não espezinhe deles. Não é do nosso feitio. Chique é erradicar a fome.