18 de mar. de 2011

Sobre o Brazil

Há palavras que carregam consigo o fardo de significarem o que nem sempre pretendem significar. Palavras que são julgadas pelo que parecem ser fora de contexto, talvez por serem mais comuns em uma determinada circunstância do que em outra, talvez por estarem historicamente ligadas a fatos que, de tão marcantes, sobrepujam a relatividade necessária a análise das conjunturas momentâneas.

“Repressão”, por exemplo, soa aos ouvidos de qualquer pessoa sensata como uma ação ruim. É uma palavra que se enquadra nos dois cenários descritos acima: é muito mais usada para descrever circunstâncias ruins do que boas e ainda nos remete a períodos negros da nossa história recente. Mas qualquer ser humano, mesmo aquele que prefere não transpor a superficialidade das palavras, exercita diariamente, sem moderação, a auto-repressão. A auto-repressão é o único mecanismo confiável e viável que nos permite conviver em um caldo tão heterogêneo quanto uma comunidade de distintos. É através dela – e por causa dela – que não nos matamos uns aos outros o tempo inteiro, e isso é bom. – ou não?

De mesmo modo e efeito contrário, a palavra “reforma” parece ser um pouco mais boa do que ruim. Reformar algo, quase sempre, é atualizar alguma coisa em seu tempo, pôr em uso algo que estava fora de funcionamento ou revitalizar um objeto obsoleto ou em mau estado. Apesar disso há reformas que são feitas em nome da tal “atualização” mas respondem a interesses suspeitos, há reformas que têm intenção boa mas conseqüências discutíveis e há reformas que têm conseqüências boas mas motivações embaraçosas.

As reformas políticas que acontecem no seio do mundo desenvolvido, por exemplo, são feitas em nome do bem estar comum. Salvo raras exceções, essas reformas mudam as fórmulas de arrecadação das previdências sociais de cada país, aumentando o tempo de serviço do cidadão comum enquanto governos emprestam dinheiros a bancos e grandes corporações a pretexto de “evitar crises”. É um exemplo de uma reforma com pretexto nobre e interesse escuso;

A Reforma Protestante, por sua vez, parecia, em sua época, uma iniciativa iluminada que tornaria mais acessível aos fiéis uma liturgia que se havia distanciado deles, de tão engessada que se tornara. Tinha tudo a ver com o sentido íntimo da palavra Religião (outra daquelas com julgamento superficial), ligar de maneira mais profunda o Divino e o Humano. Entretanto, entre as inúmeras doutrinas que se desdobraram desse movimento inicial, há algumas que são ainda mais reacionárias, inacessíveis e dogmáticas do que o catolicismo contra o qual protestam. É um exemplo de reforma bem intencionada com efeito duvidoso;

As reformas por que passa a cidade do Rio para a chegada do presidente americano, por outro lado, me deixam profundamente envergonhado. E o fato de os cariocas – muito influenciados por um senso comum massivamente divulgado pela mídia formal – embarcarem nesse embuste me causa ainda mais náuseas. Uma cidade da dimensão da nossa, com a importância e a relevância da nossa, mais uma vez, arria as calças para receber um figurão “do estrangeiro”. É mais uma manifestação patética de subserviência e complexo de inferioridade de uma cidade que, em seu cotidiano, não parece se preocupar com os 16 milhões de figurões que a tornam real diariamente.

Yes, we could.

9 de mar. de 2011

Sobre o Carnaval II



Alheia às avaliações suspeitas e aos sorrisos falsos que promovem mentiras e ajudam a emoldurar o carnaval entre décimos e tabelas coloridas, Dona Ivone Lara deixou a Lapa em transe ontem à noite.

Era incrível a convergência de simbolismos: a principal responsável pela emancipação da mulher num dos ambientes mais machistas que há, no dia internacional da mulher, acompanhada pelo Cordão do Boitatá, ícone do processo de reocupação das ruas pelo carnaval, na reocupada Lapa, encerrando oficialmente a festa. Aliás, desde que a Lapa foi invadida novamente por nós loucos não havia por lá, durante o carnaval, celebração tão bonita, democrática, livre.

Dona Ivone é transcendental. Todos a queríamos ali. E o melhor da história é que ela também parecia querer estar ali. Mas vê-la no palco deflagrou em mim uma usina à beira da implosão, dividido que fico entre a alegria que tal privilégio me causa e a consternação que sinto em saber que, ainda que ela não quisesse estar ali, talvez não lhe restasse tal opção.

Para além de sermos autônomos, os músicos somos criaturas que parecemos trafegar ao largo da oficialidade. Isso até tem algumas vantagens, como a “condescendência de classe”. Mas, ao fim e ao cabo, não se aplicam a nós as leis, e nós ainda não criamos as nossas.

Enquanto isso, ficamos batendo cabeça pelas parcas migalhas dos direitos formais.

Ela sim, de fato e de direito, é a personificação da revolução, do carnaval (há de subir o Império, Dona Ivone!) e da mulher.

Autopsicografia #13





Antigamente eu não tinha juízo...

Mas hoje penso melhor no futuro.

(Ataulfo Alves e Wilson Batista)

Sobre o Carnaval


De tudo que eu não sei, talvez a coisa que eu mais não saiba seja como se organizam as escolas de samba. não sei, porque nunca soube; não sei, porque nunca quis saber. Não sei, sobretudo, porque se as escolas são de samba, se samba é um gênero de música, e se música não é um ambiente propício à competição, a competição da qual o carnaval se fez definitivamente refém definitivamente não me interessa.

À medida que fui me aproximando do samba – despido que sou de conexões íntimas com qualquer escola – me transformei num espectador café-com-leite. Não que eu não me deixe envolver, longe disso. Torço até demais, mas por quase todas as escolas. Tenho ainda, em algum cantinho, uma simpatia maior pelo Salgueiro, a tal escola apenas diferente, mas acabo enxergando em quase todas as escolas uma razão para que eu não as queira em outro lugar que não seja ali, no maior desfile.

Em 31 anos de vida, me arrepio com memórias que não são minhas de desfiles que não vi, ainda que imagine lindos a julgar pelos sambas que o conduziram. “Onde o Brasil Aprendeu a Liberdade”, da Vila, “Sertões” da Em Cima da Hora, “Domingo” da Ilha. Lembranças que de tanto querer, às vezes pareço ter. Dos desfiles que testemunhei, posso me ver, como se fosse um espectador de mim mesmo, embevecido diante da ousadia do Cristo coberto de Joãosinho Trinta em “Ratos e Urubus...”, da Beija-Flor; cantando alto o apoteótico “Sonhar não Custa Nada...” da ultramoderna Mocidade; molhado de chuva, suor e lágrimas sobre o carro da Lapa em “O Rio de Janeiro Continua Sendo...”, daquele Salgueiro que me balança um pouquinho mais que as outras.

Nenhum dos antológicos enredos que citei acima foi campeão.

E é por isso, e só por isso, que eu não me comovo, não me enojo, não me surpreendo, não me irrito, nem sequer me importo com os resultados estranhos, com as notas suspeitas, com a sensação coletiva de injustiça.

Não me interessa se é um samba-baba pra um enredo-vaselina de um desfile-chapa-branca, ninguém vai lembrar. É um campeonato sem registro, sem interesse, sem reverb e sem delay.

De tudo isso, só me interessa registrar que, na democracia em que vivo, eu sou meu próprio súdito. Eu sou meu próprio Rei.

27 de fev. de 2011

Sobre os rótulos

Artista.

Empresária.

Duas vezes vereadora do Rio.

Qualquer uma das “qualidades” acima serviria para descrever o sujeito (ou a sujeita) deste texto que vem a seguir. Além do imortal epíteto “mãe loira do funk”.

É claro que Verônica Costa não é uma unanimidade: É uma artista com modestas contribuições estéticas à música brasileira; É uma empresária que reproduz o modelo cruel das equipes de som que pagam misérias aos artistas apesar dos rios de dinheiro que ganham nos bailes que promovem; É uma daquelas figuras políticas que só existem graças à esquizofrênica relação entre o poder e a notoriedade, tendo retribuído os votos que recebeu com atuações pífias em seus dois mandatos, coroados por infames recordes de ausência no plenário da câmara.

Como se não bastasse isso tudo, Verônica ainda arregimentou a família para torturar seu marido, tornando-se, enfim, praticamente uma unanimidade. As aspas ao redor de “qualidades” não são um acaso.

Isso posto, posso chegar, enfim, ao ponto que me motivou a escrever sobre Verônica Costa, pessoa que não me interessaria muito em sua faceta artística, empresarial, política ou torturadora.

Em todos os telejornais que vi falarem sobre o caso de Verônica, o jornalista começou a matéria dizendo “a funkeira Verônica Costa”. Não acredito, como já demonstrei acima, que Verônica venha se saindo muito bem como artista, empresária ou política – parece, a julgar pelo estado físico do marido, ser uma excelente torturadora, talvez esteja aí sua vocação – mas ainda assim “funkeira” não é a melhor maneira de descrever Verônica.

Chamá-la de “funkeira” serve ao único propósito de fazer com que o telespectador aproveite tudo o que ele já tem em mente em relação ao funk para então julgá-la. Não preciso dizer que o papel fundamental da imprensa é não nos deixar cair na tentação sanguinolenta do julgamento, em benefício da busca legítima da isenção.

A “funkeira” de hoje é o “roqueiro” de vinte anos atrás e o “sambista” da primeira metade do século. Não é mera coincidência que os três gêneros musicais sejam originalmente de guetos. Taxar qualquer artista pelo gênero que ele representa é fazer um juízo moral daquele artista que esteja de acordo com todos os preconceitos que já há em relação àquele gênero.

É, mais uma vez, a imprensa prestando o desserviço da perpetuação dos paradigmas, ferramenta indispensável à superficialidade de que precisam os microtelejornais que se atulham entre os espaços que sobram dos anúncios.

Abaixo a reflexão.

5 de dez. de 2010

Autopsicografia #12





Mas vou limpar a mente.
Sei que errei... Errei inocente.

(Cartola)

Sobre uma excitação bairrista suspeita


Ando com uma estranha tendência otimista.

A sensação de vitória, a frágil percepção de que estou no centro do mundo, tudo me seduz a pintar o tal futuro brilhante.

Quando olho em volta, percebo: é um fenômeno carioca.

Acho que todos os cariocas estão vivendo sob a embriaguez da vitória do bem, da redenção, da salvação.

De uma hora pra outra a polícia já não é corrupta e o Rio é seguro o suficiente pra Olimpíadas, abertura de Copa e o que mais vier. Flamengo e Fluminense são capazes de serem campeões brasileiros, rompendo um período negro de desconfiança e coadjuvância - ao meu xará Ubaldo, sempre - do futebol carioca. (E eu, botafoguense que sou, posso dizer, com uma certa ironia, que testemunhei meu time debulhando ambos num torneiozinho regional. Mas isso, além de provocação, não é assunto pra ser discutido agora).

Pois é, mais do que viver no país do futuro, tenho a impressão de que estamos num frenesi coletivo que nos leva a crer que vivemos na cidade do momento.

De fato, as circunstâncias são favoráveis.

De fato, o futebol carioca, embora muito mais endividado e desestruturado do que deveria, mostra sua força, sempre.

De fato, o confronto era necessário e as consequências são positivas - ainda que, entre as apreensões, não haja menção a ouro, dinheiro, joias e uns 300 homens armados.

De fato, o Rio é a cidade mais linda do mundo, e isso nos tolhe um pouco em nosso senso crítico.

Mas percebo também que, inebriados pela coreografia da prosperidade e levados pelo bom vento da mudança (bom, ainda que quente), vamos nos bastando balneário e nos esquecendo de que sempre fomos uma das principais fontes irradiadoras de cultura do mundo.

Presos na armadilha irracional dos critérios escusos de distribuição privada do dinheiro público, seguimos bebendo cerveja na porta, pagando meia, quando muito, e assistindo à esquizofrenia cíclica das falências instantâneas de casas de show recém-inauguradas e de artistas recém-nascidos.

Aí, quando vemos figuras-símbolo da cultura contemporânea do Rio anunciando que se mudarão pra São Paulo, achamos estranho.

É natural.


21 de nov. de 2010

Sobre a Consciência Negra



It's a country in which each region has its own music, each region has its things to say, each region is different to the other, but there's a communion and everybody can find common ground.

Começo mais um exercício aparentemente inútil - ainda que um tanto prazeroso - de reflexão, com a constatação de que vivo num país cujas relações raciais sofrem de uma certa esquizofrenia. No Dia da Consciência Negra, folgamos todos, mas brancos apenas folgamos, enquanto negros comungamos, entre nós negros apenas, nossas parcas conquistas e nossos vastos anseios.

Cabe explicar que eu somos branco e também somos negro porque eu sou de apenas uma raça, a Humana. Esse é o único fim possível, ainda que sejam legítimas e fundamentais todas as iniciativas de se minimizar agora o enorme fosso racial, desde que com a clara intenção de encurtar o acesso a este fim idealizado. Convenhamos, tal fim só será possível quando as oportunidades não estiverem atreladas à cor da pele.

Enquanto vivemos o processo, celebramos a negritude nua dos carnavais e escondemos sob as batinas de nosso falso moralismo as feridas por cicatrizar. Tem sido assim desde que, pelo menos oficialmente, deixamos de nos permitir pertencer uns aos outros. Seguimos perpetuando a mentira da tolerância.

Bem mais do que folga ou comunhão, o Dia da Consciência negra devia servir para nos despirmos. E aqui estou, nu, percebendo que a escravidão, a devassidão, a insubordinação, a violência, a ganância, a exploração e tanto mais nos trouxeram até aqui. Nos trouxeram até o samba, por exemplo.

Num breve silogismo: eu devo muito ao samba; o samba deve muito à África; eu devo muito à África.

Pois bem, a citação em inglês lá de riba é em inglês porque foi dita em inglês e isso não é um desrespeito ao samba. Esta citação está em um CD de música estrangeira, porque também se faz músicas além das fronteiras do nosso país, e isso tampouco é um desrespeito ao samba. Neste CD, dois excelente músicos tocam seus instrumentos de corda que não são de samba, e talvez nem mesmo soubessem que hajam cavaquinhos e violões de sete cordas, e isso, de maneira alguma, é um desrespeito ao samba.

O samba é um pouco meu, e é hoje a coisa de que mais me orgulho. Mas, ao cabo do mundo, o samba é uma expressão entre tantas de uma região entre tantas de um país entre tantos em um mundo sabe-se lá entre quantos mundos em que se façam música.

E justamente por isso acho que todos deveríamos ouvir um artista africano nos Dias da Consciência Negra porvir, para não perdermos de vista o quanto nosso país é jovem, o quanto nosso samba é ao mesmo tempo causa e consequência, o quanto são discretos nossos quelóides se comparados aos cânceres morais e raciais de que sofre a África desde muito antes de haver brancos e negros no que viria a se chamar Brasil.

O CD em questão é "Ali and Toumani", os artistas em questão são Ali Farka Touré e Toumani Diabaté e o país em questão é o Mali.


19 de nov. de 2010

Autopsicografia #11






Por dentro, com a alma atarantada,
Sou uma criança, não entendo nada.

(Erasmo Carlos & Roberto Carlos)

16 de nov. de 2010

Sobre o natal



Se meu esporte predileto é argumentar, discutir sobre religião é a copa do mundo do meu esporte. Em qualquer outra inútil competição retórica, há paradigmas clamando por desconstrução; aqui há dogmas. Inatingíveis e incontestáveis que são, os dogmas são um convite irrecusável a qualquer viciado por contradições como eu.


Este pleito que se trava entre mim e os dogmas ganha ares épicos quando meu fiel interlocutor - fiel por ter fé em um Deus qualquer, meus interlocutores dificilmente têm fé em mim - toma conhecimento do desapego íntimo que nutri toda a vida por qualquer representação institucional religiosa - ainda que, nas curvas da "vida madura", meu ceticismo nem sempre resista à minha sensibilidade (ou à minha insegurança). Entenda: não comprei nenhum dos rostos que se me foram apresentados como sendo de Deus, mas creio em Algo, assim mesmo, com maiúscula, só por birra.

Pois bem, se sob o manto inexpugnável do meu Santo Algo não estão Pai, Davi, Oxalá, Krishna, Maomé, Filho ou Espírito Santo, o que dizer de um velho, barrigudo, que usa roupas de pele - aparentemente animal - apesar do calor e esconde o rosto atrás de uma barba branca - quase sempre falsa - como se fosse um foragido? O que dizer de pinheiros canadenses de plástico cobertos de neve sintética nas portarias dos prédios de Bangu?

O natal é triste e ridículo. E sempre foi.


(Esta seria a íntegra de um texto meu sobre o natal há alguns anos. Agora cabe um epílogo:)


...ridículo. E sempre foi.

Mas a decoração de natal da minha casa está linda. Meu filho vai adorar quando acordar.


Sabe, às vezes é bom envelhecer. Envelhecer e perceber que, afinal, o natal me interessa, pelo simples fato de que promove a liturgia rara dos encontros.

15 de nov. de 2010

Autopsicografia #10





Saudade que eu sinto...
De tudo que eu ainda não vi
.

(Renato Russo)

27 de out. de 2010

Sobre mentiras

Caros, não pretendia falar de política aqui, neste enfadonho e obsoleto veículo do nada. Mas meus argumentos não cabem em 420, muito menos em 140 caracteres, portanto...

Ao contrário dos candidatos à presidência, eu não sou economista. Sou medíocre em matemática. Ainda assim fiz essa pequena pesquisa usando apenas dados oficiais (todos disponíveis na internet), depois de ver Mr. Burns dizer que:

(1) o dólar a um valor tão baixo desfavorece o exportador brasileiro;
(2) vai aumentar o salário mínimo para R$ 600,00 já no ano que vem.

A respeito do primeiro absurdo: Não foi o FH que criou a tão sonhada paridade cambial (R$ 1 = US$ 1)? Aliás, não foi ele que manteve esta mentira para se tornar o primeiro presidente reeleito da história (claro, a reeleição foi uma das manobras mais casuístas da política brasileira) às custas de um aumento sem precedentes de nossa dívida pública (e mais um favorzinho do FMI)?

Sobre o segundo absurdo, seguem os números:

FH assumiu o país com um salário mínimo de R$ 70,00 (À época havia a tão propagandeada paridade cambial, ou seja, SM de US$ 70);

Aplicando-se a inflação de 1995 até 2002, esse salário deveria ser de R$ 136,00 ao cabo de seu governo;

FH saiu do Planalto com um salário mínimo de R$ 200,00. Um aumento real (descontada a inflação do período) de 35% em oito anos (a cotação do dólar em dezembro de 2002 era de R$ 3,60, ou seja, FH assumiu o país com um SM de 70 dólares e entregou o país com um SM de... 55 dólares).

Em contrapartida...

Lula assumiu o país com um salário mínimo de R$ 200,00 (os tais 55 dólares), e assumiu também um compromisso de levá-lo a 100 dólares (ainda lembro dos risos de oposição e opinião pública);

Aplicando-se a inflação de 2003 até 2010 (arredondei a estimativa para esse ano para 5%, para cima), esse salário deveria ser de R$ 310,66 ao cabo de seu governo;

A não ser que haja uma hecatombe financeira e cambial, Lula entregará o governo com um SM de 510,00, mais ou menos o dobro de aumento real. Ah, o tal dólar baixo demais (vamos dizer que o ano feche com o dólar a R$ 1,80, ainda que esteja hoje a R$ 1,72 mais ou menos) faz com que esse salário mínimo seja de US$ 283,33.

Eu não ganho salário mínimo. Você provavelmente não ganha salário mínimo. Mas fazemos, você e eu, parte de um país com muitos problemas e que só vai poder enfrentá-los quando promover, de fato, a justiça.

Sem um entusiasmo transbordante, mas com bastante convicção: é 13.

28 de ago. de 2010

Sobre minha própria ignorância


Exatamente agora, no jornal O Globo de hoje - não o hoje de quem lê este post, mas o meu hoje quando escrevo - tem este mesmo texto. Sou o colunista convidado da semana da Revista, e aproveitei o espaço oferecido pra me expor em minha suprema ignorância e meu supremo preconceito. Ainda que tecnicamente já seja domingo... shabat shalom!


Fui alfabetizado pelo meu avô. Líamos atlas e mapas cobertos de poeira e repletos de mistério. Desde então, convivo com uma pequena alergia e com um vício: me interesso pelo mundo.

Quando fui tragado pela música, no meio de um universo de inseguranças, me seduzia a perspectiva de viajar trabalhando. De ver como eram o cheiro dos nomes, a cor das estatísticas, o som dos monumentos que eu conhecera nos livros.

Confesso que a vinda do meu filho arrefeceu o ímpeto de ir cada vez mais longe e por mais tempo, mas, ironia do destino, foi justamente o que aconteceu desde sua anunciação. Com o Casuarina conheci, nos últimos dois anos, algumas cidades do mundo. Reiterei convicções, desfiz outras tantas.

No início do ano fomos convidados pela embaixada brasileira em Israel para tocar em Tel Aviv em junho. Mais uma oportunidade de levar a música que fazemos para além de nossas próprias fronteiras e nos alimentar de novos sons, cores e cheiros.

Em 31 de maio, o exército israelense atacou um navio turco que levava ajuda humanitária à Faixa de Gaza. A abordagem covarde resultou em muitas mortes e escandalizou qualquer ser humano com um mínimo de sensibilidade. Gaza é, sim, controlada pelos radicais beligerantes do Hamas, mas há crianças por lá. E Israel impõe, contrariando a ONU, um terrível bloqueio de recursos vitais àquele lugar.

O ataque criou dois grandes argumentos para que pensássemos em cancelar a viagem: a iminência de uma nova intifada fazia com que nossas famílias temessem por nossas vidas (ainda que os números da segurança pública no Rio sejam bem piores do que os do conflito palestino); além disso, costumamos ter cuidado com as consequências políticas das escolhas que fazemos, e em casos como esse a reação ao alcance do artista é não ir.

Fomos. Porque somos profissionais. E porque éramos convidados da embaixada do nosso país. País cuja diplomacia me orgulha por optar sempre pela paz. Mantemos relações de maneira isenta e equânime com Israel e com seus inimigos políticos. Não por acaso, o Itamaraty condenou veementemente o ataque.

Fomos. Mas fomos tensos.

Em tão pouco tempo não conheci muito do lugar onde estava, mas conheci um pouco mais a mim mesmo. Acho que voltei de Israel um pouco menos ignorante. Se Tel Aviv parece ter uma maioria bem-vestida e mal informada, em contrapartida conheci pessoas brilhantes, progressistas, sionistas orgulhosos que fazem oposição ao governo e têm, inclusive, a convicção de que a única saída pra esse imbróglio secular é a consolidação do território Palestino.

Os estereótipos são muito cruéis. Logo eu, brasileiro, que não sou Tarzan e não moro em Buenos Aires, a tal capital do Brasil, cometi o erro primitivo de que, em geral, sou vítima. Há judeus de todos os tipos, pra todos os gostos, alinhados com quaisquer tendências políticas. Há judeus ateus, não-judeus, não-árabes. Há gente bonita, gente feia, gente engajada e gente alienada. Fundamentalmente, há fundamentalismo, mas há senso crítico. Nem todo israelense é Netanyahu, como nem todo palestino é Arafat como ensina a velha cartilha da velha esquerda.

O show foi descontraído, leve, delicioso para nós – e a julgar pela reação da plateia, para todos. Antes de embarcarmos de volta, tivemos um dia em Jerusalém, de onde ninguém sai ileso. Até mesmo eu, que não tenho ligação formal com nenhuma religião, fiquei impressionado com a densidade das energias que convergem pra esse lugar. Quando entrei no Santo Sepulcro pensei no meu avô, católico, que me deu acesso às letras, me emprestou o interesse pelo mundo e me educou segundo a ética cristã. Chorei por ele como Cristo, pra ele, morreu por nós. E me reaproximei dos deuses. Fomos. Queira Jeová, voltaremos a Israel. E, queira Maomé, poderemos então ir à Palestina.


Sobre razões e propósitos



Qual a razão de ser de um telefone? Qual o propósito de um rádio?

Um telefone serve pra que duas pessoas se falem à distância; um rádio tem o propósito de permitir que pessoas ouçam o que outras pessoas dizem.

Telefones e rádios param de funcionar, ou, ainda que continuem funcionando, são substituídos por outros telefones e rádios mais modernos, e, então, o propósito e a razão de ambos será acumular poeira.

Até que alguém, muitos anos depois, acha esse telefone e esse rádio que, apesar de ultrapassados, são peças que remetem a uma época e despertam a memória afetiva de quem os viu serem, respectivamente, telefone e rádio.

Serão vendidos como relíquias, mais caros do que costumavam custar quando eram telefone e rádio.

Como se pode observar, assim como telefones e rádios, quase tudo que há no mundo tem uma única razão e um único propósito de ser. Outras razões e outros propósitos são possíveis, mas, em geral, chegam para substituir as razões e propósitos que os precederam.

Digo quase tudo porque no último ano pude constatar que a razão e o propósito da vida de um pai é maior do que a razão e o propósito da vida de um homem. Sempre tive múltiplas razões e múltiplos propósitos pra viver e, desde o nascimento do meu filho, todas elas passaram a ser ele. É o único estranho e extremo caso em que uma razão-propósito é retroativa. Tudo pelo que passei nos vinte e nove anos em que estive alheio à paternidade parece ter a razão-propósito de me trazer até aqui, pai, com uma única razão-propósito de viver.

Tudo que digo, tudo que não digo, o que já escrevi neste blog e, fundamentalmente, o que não escrevi durante esse primeiro ano da vida de meu filho, têm a razão e o propósito de fazê-lo feliz.

Mas, como esse blog não quer ser vendido mais caro como relíquia... ressucitá-lo-ei.